Por: Renata Marques | Data: 1/09/2025
O Setembro Amarelo é a campanha nacional de conscientização sobre a prevenção do suicídio, que busca quebrar tabus, estimular o diálogo e fortalecer a atenção à saúde mental. Apesar de ainda ser um tema delicado, os números no Brasil são alarmantes e não podem ser ignorados.
Em 2023, mais de 16 mil vidas foram perdidas para o suicídio, segundo dados do SUS (Sistema Único de Saúde), o que corresponde a uma taxa de 12,6 mortes por 100 mil habitantes — mais de três vezes maior entre homens do que entre mulheres (3,4 por 100 mil).
Além disso, há mais de 31 internações diárias por tentativa de autolesão, um aumento de mais de 25% em relação a 2014. Muitos ainda pedem ajuda em silêncio: entre março de 2023 e março de 2024, o Centro de Valorização da Vida (CVV), via SUS, registrou quase 2,9 milhões de atendimentos — mais de 8 mil por dia, ou cinco ligações por minuto.
O fenômeno é ainda mais preocupante entre adolescentes: entre 2016 e 2022, a mortalidade por suicídio aumentou quase 50% na faixa de 15 a 19 anos e 45% entre jovens de 10 a 14 anos. Entre 2011 e 2023, as taxas de suicídio entre jovens cresceram em média 6% ao ano, enquanto as notificações de autolesões (tentativas e comportamentos autodestrutivos) dispararam 29% ao ano na faixa de 10 a 24 anos.
Conectados, mas vulneráveis
Infelizmente, esses números acompanham o crescimento do uso de mídias sociais entre jovens. A taxa de automutilação não suicida varia entre 14% e 21% nessa faixa etária, e estudos indicam que jovens que se automutilam tendem a ser mais ativos em redes sociais do que aqueles que não apresentam esses comportamentos.
Uma revisão bibliográfica sistematizada, realizada no PubMed e no Ovid Medline, analisou o papel das redes sociais online na automutilação deliberada e na ideação suicida em adolescentes. Dos artigos encontrados, nove atenderam aos critérios de inclusão e exclusão estabelecidos.
De acordo com Memon et al. (2018), os resultados mostraram que redes sociais são usadas por jovens vulneráveis como meio de comunicação e busca de apoio social, mas também podem aumentar a exposição e o envolvimento em comportamentos de automutilação. Isso ocorre quando usuários recebem mensagens negativas promovendo automutilação, imitam comportamentos autodestrutivos ou adotam práticas observadas em vídeos compartilhados.
Além disso, maior tempo gasto nas redes sociais foi associado a mais sofrimento psicológico, necessidades não atendidas de apoio à saúde mental, autoavaliação negativa da saúde mental e aumento da ideação suicida. Em resumo, o uso intenso de redes sociais pode potencializar comportamentos autolesivos e pensamentos suicidas em adolescentes vulneráveis.
As questões relacionadas a bullying e cyberbullying também podem desencadear quadros de depressão e automutilação, e, nos casos mais graves, levar ao suicídio.
Por que esses números importam?
É iminente e preciso: não se trata de estatísticas abstratas. A normalização desses dados é o primeiro passo para gerar desinteresse com o tema.
Subnotificação não pode ser justificativa. Mesmo com falhas nos registros, os números já alarmam. Pesquisas sugerem que o fenômeno pode ser ainda maior.
Máximo de juventude, mínimo de atenção. O aumento entre adolescentes e jovens não se explica apenas por mudanças sociais — é uma chamada urgente de investimento na saúde mental desde cedo.
A prevenção não pode esperar. Ao contrário do que muitos imaginam, falar sobre o tema é uma iniciativa que gera esclarecimento, empatia e esperança.
Um olhar especializado que reconecta à vida
A psiquiatra Alessandra Diehl destaca:
“São dados alarmantes que sinalizam a vulnerabilidade de crianças e jovens. Se pudéssemos ofertar tratamento precoce, minimizaríamos essas estatísticas.”
A pediatra Luci Pfeiffer, da SBP, alerta que entre adolescentes muitas vezes ocorrem duas ou três tentativas antes da consumação, sinal de que cada tentativa é uma oportunidade de intervenção.
A literatura sempre se ocupou dessa pauta com atenção e seriedade. Não é por acaso que obras como As Ondas (Virginia Woolf), O Lado Bom da Vida (Matthew Quick), Veronika Decide Morrer (Paulo Coelho) e O Apanhador no Campo de Centeio (J.D. Salinger) abordam o suicídio, a depressão e a vulnerabilidade emocional de maneira a incomodar, conscientizar e provocar reflexão. A arte funciona como espelho da realidade e chamada à empatia, lembrando que a vida não pode esperar e que reconhecer sofrimento é passo essencial para a prevenção.
Leituras que ampliam a consciência
A literatura também pode ser uma poderosa aliada na compreensão e no enfrentamento da dor. Algumas obras ajudam a enxergar o tema sob diferentes perspectivas, da análise clínica ao olhar mais íntimo e humano.
📖 O Demônio do Meio-Dia, de Andrew Solomon
Referência mundial sobre a depressão, mistura relato pessoal e entrevistas com outras pessoas que enfrentaram a doença. Um livro profundo, que quebra estigmas e amplia a empatia sobre um dos maiores fatores de risco do suicídio.
📖 O Suicídio e sua Prevenção, de José Manoel Bertolote
Escrito por um dos principais estudiosos brasileiros do tema, apresenta causas, conceitos e estratégias de prevenção de forma clara, servindo tanto para profissionais de saúde quanto para leigos interessados em compreender melhor o fenômeno.
📖 Meu Coração e Outros Buracos Negros, de Jasmine Warga
Na voz de uma adolescente, a obra mostra que até nos momentos mais escuros pode surgir uma faísca de mudança. Uma história delicada e transformadora sobre amizade, amor e novas possibilidades de vida.
📖 O Último Adeus, de Cynthia Hand
Sensível e tocante, acompanha uma jovem que precisa lidar com o luto após perder o irmão para o suicídio. A narrativa acolhe e traz esperança, mostrando que recomeçar é possível mesmo em meio à dor.
Cuidando da mente: a importância da informação e do apoio profissional
O cuidado com a saúde mental não depende de grandes transformações, mas de pequenos hábitos diários que podem se tornar pilares de equilíbrio emocional.
O Dr. Antônio Geraldo da Silva, médico psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, destaca a importância de abordar o tema do suicídio com responsabilidade e informação adequada:
“Infelizmente, muitas pessoas usam termos errados para falar sobre o suicídio. Nosso objetivo é trazer o assunto à tona, orientar sobre como salvar vidas e informar sobre onde e como buscar ajuda em caso de ideação suicida ou sintomas de doença mental. O suicídio não é saída para ninguém, e quem apresenta esse pensamento geralmente sofre de algum transtorno mental que requer cuidado especializado.”
Hábitos diários que fortalecem a saúde emocional
Segundo Jhenevieve Cruvinel, terapeuta integrativa citada pela Upiara, há hábitos simples que ajudam a fortalecer a saúde emocional no dia a dia:
Dessa forma, informação, cuidado profissional e hábitos diários se complementam, promovendo a saúde mental e prevenindo o suicídio. No Cibrius, entendemos que essa responsabilidade vai além do cuidado individual: significa enfrentar o suicídio como uma crise de saúde pública contínua, abrir espaços de escuta genuínos, fortalecer a prevenção todos os dias e inspirar transformação social. Porque cada vida preservada é um elo a mais na nossa coletividade.
Fontes: Agência Brasil; Agência Fiocruz; CNN Brasil SPDM Saúde; Blog Upiara; OAB-GO; Memon et al., Journal of Adolescence, 2018. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6278213/.